Assisti a uma peça teatral chamada “O casamento entre o céu e o inferno”, de William Blake. Foi há uns 10 anos, numa caverna em São Tomé das Letras. Isso mesmo, era uma caverna iluminada com velas, a gente sentava nas pedras, um friiiiiiiiioooooooooooo... Mas levamos um bom vinho para esquentar nossa noite. Fui com minha irmã, parceira e amiga. Era um monólogo, um homem nu (completamente!) declamava Blake... Não sei se pelo vinho, frio ou nudez do moço, eu parecia estar fora de órbita, internalizando aquele despejar de palavras como se cada uma fosse modificar minha vida para sempre... Estava meio zen... De repente, uma citação escancarou meus olhos e a guardei para o resto da minha vida. Ela realmente mudou minha história: “Antes trucidar uma criança no berço do que acalentar desejos que não se transmutam em atos”.
A frase declamada fez até um bebê que estava na companhia dos pais (que deviam ser bem doidões para levar um recém nascido numa caverna em pleno inverno e de noite), chorar sem parar... Sabe aquelas coincidências que fazem todo sentido? Rsrsr... O bebê parecia ter entendido a profundidade da analogia como se tivesse 60 anos de vida.
E abriu o berreiro como quem diz: “O que eu tenho a ver com isso???”.
Blake quis retratar a coerência que devemos manter em nossas vidas. Não adianta nada alimentar desejos se não os tornamos reais. Tem sempre alguém que vive sonhando com algo, vive falando aos quatro ventos de tudo que queria realizar, conquistar, etc., mas não faz nada, absolutamente nada para que isso se torne possível... Todo mundo tem um tio assim, ou um primo, amigo... Reclamões, eternos senhores reféns do mundo. Não conseguem porque a vida não os permite. Como se o mundo determinasse seu destino. Confortável, não é? Porém, triste demais não ser dono de si.
A analogia é intensa, profunda, agressiva, horrível, mas tem como objetivo retratar que é preferível atacar sem pena uma criança indefesa (algo inimaginável para os seres humanos normais) do que viver a vida como refém, só alimentando internamente nossos desejos e não os tornando factíveis.
Não há nada pior do que chegar ao fim da vida e saber que tudo não passou de planos. Que todos desejos ficaram no universo surreal, nos filmes assistidos, nas músicas ouvidas, nas projeções que nunca aconteceram... E aí faltará o mais importante para que você possa mudar as coisas: Tempo! Then, enjoy the time you have left! Beijos!
fã....
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