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27 de maio de 2011

O prazer da invisibilidade

Todo mundo nasce para se destacar. Seus pais desejam que você se torne o melhor aluno, o melhor profissional, o melhor filho do universo... A gente é criado assim. Com perspectivas de ser alguém mega diferenciado. O termo “diferencial” é super valorizado no mercado. Todas as empresas apresentam seus diferenciais. A gente estuda na Administração, no Marketing, na Psicologia. Ser diferente, se sobressair em algo, é requisito de sobrevivência no mundo atual.
E ser invisível? O quanto isso é possível? O quanto isso é bom?
Tenho ido muito a São Paulo por conta de um curso que estou fazendo lá. E me vejo no mar de gente da Avenida Paulista, no meio do dia, mas ninguém me vê. Ninguém. Sou uma estranha, uma neutra, uma imperceptível. Não conheço as pessoas, não sei o que fazem, mas ninguém me conhece também. E ninguém está preocupado em conhecer. Caminho para almoçar, chego ao restaurante e sou um número: “386”, pronto, meu prato está saindo... Só pegar... E não ser mais nem lembrada. Aí volto para o curso, e passo meu crachá, outro número, para entrar na sala... E fico refletindo sobre essa sensação de se tornar apenas um entre milhares.
Quando se vive no interior, é muito difícil ter essa possibilidade. Eu até tento, mas é quase que uma ofensa social vc tentar não ser notado. Domingo eu estava muito afim de ler. Ler e escutar música. Mas não queria fazer isso em casa. Aí peguei meu carro, coloquei Marisa Monte e quis sentir a música: “... ao meu redor está o deserto...” Sentei na grama, no meio da cidade, com o som alto, minha escritora predileta e um cigarro. Fiquei viajando. Saí de lá quando o sol tava ardendo e a fome gritando. Foram esses fatores que me desconcentraram. Só! Ignorei o mundo a minha volta. Porém, o mundo não te ignora... Rsrsrs... Na segunda meu amigo me ligou e disse: “O que vc tava fazendo sentada na grama no meio da Avenida Anchieta em pleno domingo sozinha?” rsrsrs... Abstive-me de explicações. Nada mais, nada menos do que tentando ser ninguém... Tentando ser invisível e tendo um momento só meu, exclusivo. Mas não dá... Interior é complicado. Alguém sempre te conhece, ou um conhecido do conhecido te vê... É até engraçado.
O fato de buscarmos algum destaque para nossa vida, nas conquistas, no conhecimento, nos relacionamentos profissionais, não nos obriga necessariamente a querer ser visto. Eu quero me sentir destacada internamente, segura, confiante em mim. Mas não preciso que isso seja reconhecido. Reconhecimento é bom para confirmar quem somos, claro, mas não é 100% seguro. Segurança depende exclusivamente da gente. Tem pessoas que passam a vida toda buscando um “ok” externo para serem felizes. Eu busco o meu “ok” interno. Não quero a vulnerabilidade de esperar a aclamação popular! Quero me auto-reconhecer... Não é fácil, mas é muito prazerosa essa sensação de se sentir mais um para todo mundo e, ainda assim, ser O CARA para você mesmo. Isso não é desprezo pelos outros, é só busca de crescimento em prol da nossa própria felicidade. É muito bom saber que a gente se basta para ser feliz.

Um comentário:

  1. Legal... Penso que essa tentativa é sempre frustrada, não porque o amigo da cidade do interior nos reconhece e impede de sermos anônimos, mas porque já nascemos, já somos feitos pra ser alguma coisa pra alguém, pro mundo. Não existe eu sem o outro...
    Mas concordo com você, dar uma fugida pra SP e andar pela Paulista, sem ser notada, é uma delícia!

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